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MAIS VAIAS

   Martha E. Ferreira
   Economista, consultora econômica, professora, palestrante e articulista
   Publicado em A Tribuna - Julho 2013

   O projeto de lei aprovado pela Câmara dos Deputados, para criar 400 novos municípios, só não é mais indecente do que os políticos que o aprovaram.
   Na contramão da poupança, gastos úteis e investimentos em infra estrutura econômica e social, esses parlamentares afrontam as ruas com outro projeto fisiológico. Vão ganhar mais vaias!
   Em 2011, a arrecadação na Região Metropolitana da Grande Vitória ultrapassou R$ 3,6 bilhões, mas os investimentos representaram uma média de apenas 16%, míseros percentuais que oscilaram entre 18%, em Guarapari, e 2,2% em Fundão.
   Nas sete Prefeituras que a compõem, nem um centavo é deixado para o ano seguinte. A rubrica Pessoal engole 50% das receitas; Custeio leva outros 30%; Juros da dívida torram R$ 82 milhões; e as Câmaras Municipais engolem outros R$ 87 milhões.
   Se somarmos os investimentos em Educação e Saúde o resultado será inferior aos gastos com Pessoal. O Custeio da máquina pública inchada, também supera os valores aplicados em Educação ou Saúde.
   Suas excelências deveriam estar focadas no humilhante Transporte Público, que desencadeou manifestações por todo o País; Saúde, que está entregue às baratas; Educação, que emburreceu; ou na Mobilidade Urbana, que é caótica por aqui.
   A bancada capixaba deveria se lembrar da nossa Segurança Pública. Somente em 2011 foram registrados 1.148 crimes letais na Região Metropolitana. O Espírito Santo é nº 1 em assassinato de jovens e mulheres; ocupa o 8º lugar no ranking dos acidentes fatais de trânsito; e Vitória é a 3ª capital do Brasil onde mais se mata!
   Onde estão os investimentos em infra-estrutura, prometidos pelo governo federal, cuja responsabilidade de cobrar cabe aos deputados e senadores? Porto, aeroporto e rodovias esperam há 03 décadas, sob roubalheira, sem sair do papel! Logística ineficaz e infra-estrutura sucateada fazem a economia do Espírito Santo perder competitividade e aumentar seu custo de produção.
   Os políticos querem aumentar os gastos, enquanto as perdas do estado, com a extinção do Fundap, atingem mais de R$ 1 bilhão por ano! Eles aceitaram que elas sejam ‘compensadas’ pelo governo federal, com empréstimos do BNDES, o que só vai aumentar nossa dívida pública.
   Enquanto suas excelências se preocupam com os companheiros desempregados, que aguardam um novo município para chamar de seu, as perdas com a mudança no marco regulatório dos royalties do petróleo e gás vão atingir outro R$ 1 bilhão.
   Nem mesmo a mudança na distribuição do Fundo de Participação dos Estados, que vai dar outra paulada no Espírito Santo, faz com que esses deputados arrefeçam a sua inconseqüente idéia de criar novas goelas para gastos inúteis.
   Para completar esse quadro instável, a crise internacional empurra a economia capixaba para baixo, porque metade do nosso PIB é resultado do comércio exterior, que enfrenta dificuldades.
   Já não é mais possível conviver com essa classe política retrógrada e corrupta, que arranca o couro dos contribuintes e quer criar currais eleitorais próprios e se cercar de aliados. É preciso incentivar a formação de administradores municipais modernos, capazes de fazer a leitura dos cenários locais e de desenvolver novos negócios potencialmente competitivos, inclusive no comércio global, com profissionalismo, criatividade, inovação e, principalmente, responsabilidade fiscal.