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A FONTE VAI SECAR

 Martha E. Ferreira é economista, consultora de negócios, professora, palestrante e articulista

Publicado em A TRIBUNA - fevereiro de 2015

   De acordo com os resultados da pesquisa do International Food Policy Research Institute (IFPRI), até 2050 mais da metade da população mundial estará em situação de escassez hídrica. Além do aumento da sede no mundo, a falta de recursos hídricos tem graves implicações econômicas e políticas para as nações, e colocará em risco as safras agrícolas, a produção industrial, a geração de energia elétrica e problemas para o consumo humano, resultando no aumento de epidemias e mortes.

   O Brasil é um país privilegiado. Sozinho, detém 12% da água doce de superfície do mundo, o rio de maior volume, um dos principais aqüíferos subterrâneos e invejáveis índices de chuva. Mesmo assim, falta água no semi-árido e nas grandes capitais, porque a distribuição desse recurso é bastante desigual e o país carece de um planejamento em longo prazo. Cerca de 70% das reservas brasileiras de água estão no Norte, onde vivem menos de 10% da população, e nas regiões mais densas do Sudeste, Centro-Oeste e Sul o consumo aumentou inversamente proporcional ao bom senso do cidadão e à política energética do governo.

   Para o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), o desmatamento interrompe o fluxo de umidade do solo para a atmosfera. Desta forma, os “rios voadores” - nome dado às grandes nuvens de umidade responsáveis pelas chuvas que são transportadas pelos ventos desde a Amazônia até o Centro-Oeste, Sul e Sudeste brasileiros -, não “seguem viagem”, provocando a seca.

   O lixo, esgotos, dejetos industriais e mineração sem controle, que poluem, contaminam e deterioram os rios, lagos e oceanos também provocam o estresse hídrico e a má qualidade da água, que causam milhares de mortes, todos os anos, especialmente de crianças.

   Um estudo do Instituto Trata Brasil constata que o desperdício de água no Brasil também é preocupante. No Mato Grosso do Sul a média de perdas é de 19,6%; no Espírito Santo, 27,5%; Paraíba, 36,8%; Rio Grande do Sul, 47%; Amazonas, 58,4%; Alagoas, 65,9%; e Amapá, 74,2%.

   Essas perdas de água, que resultam da irresponsabilidade do usuário, problemas técnicos das empresas e ineficiência da gestão dos governos, representam um dos maiores desafios e dificuldades para a expansão das redes de distribuição de água no Brasil e faz com que o setor de saneamento perca recursos fundamentais para a expansão do esgotamento sanitário.

   A agricultura é essencial para o ser humano, mas é um dos setores que mais consome água. Segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), aproximadamente 70% de toda a água potável disponível no mundo é utilizada para irrigação, enquanto as atividades industriais consomem 20% e o uso doméstico 10%.

   O setor agrícola precisa investir em sensores e monitoramento para que a irrigação seja mais eficiente e a indústria, em tratamento de efluentes e na captação da água da chuva. Casas e edifícios ainda usam torneiras, chuveiros e descargas que gastam demais. 

   Por fim, como o modelo energético brasileiro é fortemente baseado em hidrelétricas, apesar de ser considerado um dos mais sustentáveis do mundo, ele acaba sendo refém da falta de chuvas e de uma política energética fracassada. Apagões serão cada vez mais constantes, arrastando o país para uma crise sem precedentes.

   Cabe aos usuários do sistema usar seu bom senso; às autoridades, promover campanhas públicas de conscientização, fiscalização e, principalmente, investimentos; e ao ser humano, em geral, exercitar sua cidadania perante os governos e ter o máximo de cuidado com o meio ambiente, como forma de preservar a água, porque dela depende a nossa própria sobrevivência.