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A REVOLUÇÃO DO XISTO

Martha E. Ferreira é economista, consultora de negócios, professora, palestrante e articulista
Publicado em A Tribuna - maio 2015

   Por mais de 50 anos, o maior fornecedor de petróleo do mundo foi o Oriente Médio. Este fato determinou, em grande parte, as relações políticas entre os países membros da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) com os Estados Unidos e Europa.
   Agora, os EUA ultrapassaram a Arábia Saudita e a Rússia para se tornarem o maior produtor mundial de petróleo e gás, com a sua extração a partir do xisto, uma rocha sedimentar e porosa, rica em material orgânico. 
   Os países que detém as maiores reservas são: China, EUA, Argentina, Argélia, México, Austrália, África do Sul, Rússia e Brasil. 
   A grande vedete, nesse novo cenário, é o gás de xisto americano. Ele é obtido através de um processo de extração conhecido como "fracking", em que as rochas são fraturadas usando-se água, areia e produtos químicos. O impacto da sua produção, fora dos EUA, vai depender dos custos por volume, em cada um desses países, a maioria economicamente instável. Dependerá, também, da solução que cada um vai encontrar para a escassez de água - uma barreira quase inexpugnável para a grande maioria deles -, visto que são usados 20 milhões de litros de água, por poço perfurado. 
   A produção de gás natural, menos poluente, é uma vantagem para quem usa carvão e petróleo para gerar energia mas, discute-se que o uso da técnica de fratura hidráulica da rocha, pode provocar a contaminação da água, via lençóis freáticos; tremores de terra; mortandade animal; e a emissão fugitiva de metano, causando sérios prejuízos ao meio ambiente.
   Entretanto, suas vantagens econômicas são indiscutíveis. A produção do óleo e gás do xisto se dá em poucas semanas e a um custo muito baixo, se comparado à prospecção do petróleo e gás convencionais. Por isso, o xisto fez o preço do gás cair de US$ 12 para US$ 3 por milhão de BTU. Para comparar, o preço do gás convencional, no Brasil, custa entre US$ 12 e US$ 16 por milhão de BTU. 
   Como os americanos estão importando cada vez menos combustíveis e exportando cada vez mais seu próprio óleo e gás de xisto, houve uma grande mudança no mapa geopolítico mundial. A auto-suficiência energética dos EUA o livrou da sua dependência por fornecedores potencialmente hostis ou problemáticos, como os países árabes, Irã, Venezuela e Rússia; esvaziou o poder da influente Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep); deu à Europa uma alternativa para sua dependência do gás russo; e pode poupar a China de financiar regimes africanos para garantir sua fatia na produção local. Uma guinada e tanto!
   E como fica o Brasil nesse novo mapa? Enquanto o mundo está vendendo o barril em torno de US$ 50, o custo para viabilizar a exploração do pré-sal brasileiro supera a marca de US$ 60 tornando-o, na prática, economicamente inviável. Além disso, a produção norte-americana fará com que o Brasil reduza em 60% as exportações da Petrobras para aquele país, que é o nosso maior cliente, já em 2016.
   Vamos insistir em gastar bilhões de dólares, neste setor, e construir outros milhares de elefantes brancos (estaleiros, plataformas, petroleiros), que ficarão apodrecendo no litoral brasileiro, como aconteceu com os estádios da Copa? Qualquer delator sabe onde esse desgoverno colocou nossa estatal do petróleo, e a nossa chance de nos tornarmos um parceiro cobiçado foi enterrada pela corrupção.
   O ideal seria desacelerar, recomeçar do zero e firmar nossas prioridades conforme o Capítulo II, artigo 6º da Constituição Federal: educação, saúde, alimentação, trabalho, moradia, transporte público, lazer, segurança, previdência social, proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados e, por minha conta, uma Justiça que puna de verdade.