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SOMOS TODOS GREGOS

Martha E. Ferreira é economista, consultora de negócios, professora, palestrante e articulista

Publicado em A TRIBUNA - julho 2015

   Com poucas exceções, os países da Zona do Euro compartilham uma longa história de indisciplina fiscal. A dívida pública média duplicou, durante o período de 1970 a 1995, passando de 30% do PIB para 60%.

   Os governos, então, ajudaram os setores mais críticos, com pacotes bilionários, para atenuar os efeitos negativos na economia. Mas os gastos continuaram a crescer, inflados pela criação de novos incentivos sociais e desonerações de impostos, acompanhados por abusivos aumentos de salários e inchaço da máquina pública.

   A farra continuou, mesmo depois da crise financeira internacional, em 2008. Então, os países solicitaram auxílio externo por intermédio da Troika (comissão tripartite constituída pelo Fundo Monetário Internacional, Banco Central Europeu e Comissão Européia), em 2009, para evitar a fuga de investimentos, escassez de crédito e a perda de empregos. Portugal, Irlanda, Grécia e Espanha continuaram sofrendo as conseqüências, por causa das suas respostas frágeis aos problemas.

   A Grécia, particularmente, porque não seguiu as recomendações do pacto fiscal imposto pelos credores: gastar menos do que arrecada, poupar e investir. Daí, sua dívida pública aumentou rapidamente, chegando a 177% do PIB, em 2014, mesmo fazendo uso da contabilidade ‘criativa’, o que sugere ser a situação ainda pior.

   A União Européia fechou acordo de um terceiro resgate para a Grécia, mas é possível que suas dificuldades financeiras levem mais tempo para resolver, porque têm origem política. Para o partido no poder, Syriza (que significa Coalizão da Esquerda Radical), os novos acordos com a Troika são incompatíveis com a sua ideologia socialista.

   Os credores exigem a implantação de um regime de austeridade fiscal que prevê reformas tributária e da previdência com aumento de impostos e idade para aposentar; reversão da desoneração de alguns setores; corte de incentivos sociais e gastos militares; redução de cargos e altos salários públicos; e privatizações pontuais. Os esquerdistas gregos acham que isso é um erro político ou simples submissão a interesses estrangeiros.

   Mas, essa situação não é exclusividade da Grécia. A maioria dos líderes mundiais abandonou a responsabilidade fiscal, administrou muito mal o orçamento de seus países e está sendo duramente criticada por contribuir para inflar uma nova bolha, que poderá ser ainda mais explosiva do que a de 2008.

   Além dos graves problemas enfrentados por alguns membros da  União Européia, os Estados Unidos ainda não se restabeleceram totalmente da sua bolha imobiliária e estão muito voltados para si próprios, enquanto a China desacelerou seu crescimento, demandando menos por commodities dos emergentes e artigos de luxo da Europa, como forma de impor limites à especulação imobiliária e das bolsas de valores. UE, USA e China, juntos, detêm 59% do PIB mundial e os duros impactos dessa tripla retração, sobre o Brasil e outros emergentes, já estão sendo claramente sentidos.

   Por si só, o impacto da crise grega, sobre a economia do Brasil, é limitado. Entretanto, como a situação brasileira é muito delicada, a Grécia é uma questão a mais para complicá-la. E olhando atentamente, o governo grego é perigosamente parecido com o nosso.

   Por isso, o clima de desconfiança no governo do PT, a guerra política, os escândalos de corrupção, a iminência de um impeachment presidencial e as fragilidades da nossa economia têm desestimulado investimentos estrangeiros e as exportações de nossos produtos. O caminho de volta à estabilidade será longo. Não acredito que o atual governo seja capaz de trilhá-lo com honestidade, competência e grandeza. Está na hora de passar a limpo nossos erros, deixar de ser Grécia e, simplesmente, voltar a ser Brasil.