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ÁGUAS SUJAS

Martha E. Ferreira é economista, consultora de negócios, professora, palestrante e articulista

Publicado em A Tribuna - abril 2016

O relatório do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento - PNUD aponta que, no mundo, há 1,1 bilhão de pessoas sem acesso a água potável ou tratada; cerca de 2,6 bilhões moram em domicílios sem esgoto; e mais de 1 bilhão não têm banheiro.
   Os efeitos desse problema recaem, especialmente, sobre os mais pobres e as crianças. Segundo o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), a cada 20 segundos, uma criança morre de doenças relacionadas à falta de água potável, saneamento e condições de higiene.  
   Entre essas doenças, a diarréia é a que mais mata. São 2.195 crianças mortas, entre 1 e 5 anos, todo dia! Ainda que possa ser evitada com medidas simples, ela mata mais do que tuberculose, malária e sarampo, juntos; seis vezes mais do que os conflitos armados; e cinco vezes mais do que a AIDS. 
   Se os governos investissem fortemente em medidas de higiene, acesso à água e saneamento básico, 10% das doenças registradas, ao redor do mundo, seriam evitadas.
   No Brasil, mais de 35 milhões de pessoas não têm acesso a redes de distribuição de água e a contaminação dos mananciais é crescente. As diversas doenças que têm sua origem na água contaminada, respondem por 65% das internações hospitalares na rede pública. 
  E, apesar da importância para a saúde e meio ambiente, a destinação de esgotos no Brasil está longe de ser adequada. Mais de 100 milhões de pessoas não têm redes para coleta e 80% dos esgotos gerados são lançados diretamente nos rios e oceano, sem nenhum tipo de tratamento. 
   Para que os serviços de água tratada, esgoto adequado e coleta de lixo cheguem a todos os lares brasileiros, em 2033, seriam necessários R$ 300 bilhões em investimentos no setor. Mas, como a média histórica de investimentos é muito baixa - cerca de R$ 7,6 bilhões por ano, no período 2002-2012 -, o Brasil só atingirá essa universalização em 2054. 
   O descaso e a ausência de investimentos no setor de saneamento, em nosso País, em especial nas áreas urbanas, compromete a qualidade de vida da população e do meio ambiente.   
   No ano dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, o site "Taiwan Tomonews", especializado em fazer animações satíricas de suas reportagens, fez um vídeo bem polêmico sobre a condição das águas do Rio de Janeiro. O vídeo mostra atletas remando no esgoto, turistas e competidores com diarréia e vômito. A produção mostra, também, atletas tomando vacinas e um banho de água sanitária após deixarem a água.
   Mas, a culpa dessa situação calamitosa não é de responsabilidade exclusiva dos governos: 3,5 milhões de brasileiros, nas 100 maiores cidades do país, despejam esgoto irregularmente, mesmo tendo redes coletoras disponíveis.
   O Estado do Espírito Santo está na vanguarda: em 2009, universalizou o serviço de abastecimento de água, nos 52 municípios onde a CESAN atua. E, no final de 2012, concluiu o programa Águas Limpas, atingindo a cobertura de 65% de esgoto tratado, com a construção de várias obras e 1.640 quilômetros de rede.   
   De 2003 a 2015 foram investidos mais de R$ 2 bilhões em água, esgoto e melhorias operacionais e a perspectiva para 2016 é de investir cerca de R$ 204 milhões para a ampliação e melhoria dos serviços, nesses 52 municípios.
   Em Vitória, no mesmo período, foram investidos R$ 431,3 milhões em saneamento. Foram construídos novos reservatórios de água, implantadas novas redes e as estações de tratamento de esgoto foram ampliadas. Essas obras permitiram atingir mais de 90% de cobertura dos serviços de coleta e tratamento.
   Entretanto, até agora, apenas 49,9% dos capixabas fizeram a ligação de seu imóvel à rede pública. O Programa Se Liga na Rede está em funcionamento, fazendo as abordagens aos moradores para conscientizar sobre a importância dessa ligação. Porém, apesar de mais de 120 mil imóveis terem o serviço disponível, ainda não o utilizam. 
   E então, como se já não nos bastasse a lama da Samarco e o pó preto da Vale, vai aí mais uma tragédia, fruto da irresponsabilidade geral: nosso lindo Estado está mergulhado, também, num torvelinho de águas sujas. 
   No final das contas, podemos dizer que a culpa da situação do esgoto a céu aberto, contaminação dos rios e praias poluídas é de todo mundo: do governo estadual (gestor), das Prefeituras (responsáveis pela fiscalização e multas), da CESAN (órgão responsável pela captação, tratamento e distribuição de água, coleta e tratamento de esgoto) e da população, que não se liga.