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AQUI, LÁ E ACOLÁ

Martha E. Ferreira é economista, consultora de negócios, professora, palestrante e articulista

Publicado em A TRIBUNA
Março 2017

AQUI, LÁ E ACOLÁ
 
   Aqui no Espírito Santo, os municípios estão quebrados pela má administração e excessivos gastos inúteis, mas os inacreditáveis feitos negativos são repetidos, ano após ano. 
   Se somarmos as despesas com saúde e educação, o resultado será menor do que o que se torrou com o excesso de pessoal. Como consequência, estado e municípios se consolidam como meros empregadores e os empregos públicos, como contrapartida de apoio político. O resultado desta famigerada equação é a queda livre do nível da prestação de serviços e a explosão de dívidas, que arrastam as cidades para o abismo.
   O volume de investimentos, não alcança dois dígitos, na maioria dos 78 municípios capixabas. Ou seja, pagamos bilhões em impostos para vê-los queimados por Custeio superfaturado e Folha ineficiente. 
   Enquanto isso, o governo comemora a incrível marca de 1181 assassinatos, em 2016, porque houve uma redução de mortos, frente ao ano anterior, e se vangloria de ter construído uma pinguela sobre um canal ou uma estradinha que se origina em lugar nenhum, até ali, 10 quilômetros depois. E faz disso, cartões postais para aplausos da claque aliciada. 
  No Brasil, de norte a sul, a corrupção pandêmica leva todos os recursos financeiros para bolsos criminosos, dentro e fora do país. A falta de segurança assassina 160 pessoas, todos os dias, especialmente mulheres e crianças inocentes, militares que tentam manter a ordem, e prisioneiros confinados no inferno das penitenciárias sem fiscalização adequada. A crise na saúde mata milhares, em função da péssima gestão e descaso com os profissionais da área. Nossa educação é uma das piores do planeta, provado pelos testes aplicados por instituições internacionais. A falta de infraestrutura nos garante um dos mais altos custos de produção e logística, do mundo. O desemprego avança sobre 12 milhões de brasileiros. A impunidade desgraça nossos valores. E a Justiça ineficaz destroça o pouco que nos resta de dignidade. 
   Esta situação nos arrasta para a idade da pedra, um fétido buraco sem fundo, onde se torna cada vez mais difícil alcançar um horizonte qualquer. Lá é um país onde ainda impera a lei dos clãs, das facções e daqueles que se locupletam com benesses, não admitindo perdê-las - ainda que ilegais ou imorais -; e daqueles cuja pobreza intelectual ou espiritual os faz seguir vomitando asneiras e criando novos robôs. 
   Para quem vive acolá, no resto desenvolvido e civilizado do planeta, ou o Brasil é invisível ou continua sendo aquele país latino cheio de gente pelada no carnaval; tráfico de drogas; turismo sexual; assassinatos e estupros; favelas insalubres; esgoto a céu aberto; trânsito caótico; e corrupção generalizada.
   Para completar a tragédia, nossa participação no comércio internacional é de apenas 1% - a maioria commodities -, e pouco interesse despertamos nos países ricos. Então, vamos sendo substituídos por aqueles que fabricam produtos com valor agregado mais alto, tecnologia, ideias inovadoras e serviços especializados, negociados entre profissionais educados para o futuro. 
   Assim, sobrou o restolho para nós: aquelas parcerias com nossos iguais em atraso intelectual, tecnológico, cuja moralidade duvidosa afeta ainda mais nossa imagem, afastando-nos daqueles países que exigem regras de mercado transparentes. E é esse quadro perverso que tem tornado nosso crescimento econômico e desenvolvimento social, negativos. 
   Donald Trump, o novo presidente dos Estados Unidos, como todo bom nacionalista, não vai facilitar para ninguém. No caso do Brasil, em parte porque nossa participação no comércio é medíocre, mas especialmente porque estamos envolvidos em processos de corrupção bilionários da Petrobras, os quais prejudicaram muitos americanos. 
   Mas, isso pode ser uma oportunidade para promover mudanças e criar um país melhor. O governo brasileiro e nossos empresários terão que se esforçar para romper com seus vícios e provar que têm capacidade e credibilidade para iniciar uma nova era de comércio, em condições civilizadas. Ou ficar de fora.